domingo, 13 de julho de 2008

Alanis Morissette está cansada de expressar sua raiva


Em 1995, a cantora e compositora canadense saltou do status de ídolo adolescente para o sucesso internacional com "You Oughta Know", um acerto de contas maldosamente explícito com um ex-amor que ajudou a impulsionar seu álbum "Jagged Little Pill" a vendas mundiais de 30 milhões de cópias. Neste ano, a separação de Alanis e do ator Ryan Reynolds inspirou muito de "Flavors of Entanglement", seu 10º álbum e seu primeiro de material novo em quatro anos.
Alanis tenta distanciar as canções de Ryan Reynolds em particular, dizendo que elas representam "apenas o desatar pessoal de alguns relacionamentos significativos na minha vida na época".
Ela reconhece, entretanto, ter atingido o "fundo do poço" emocional e descreve "Flavors of Entanglement" como uma narrativa tanto deste mergulho quanto da subseqüente recuperação. "Eu não deixei que as coisas desandassem completamente", diz a cantora de 34 anos, que desde "Jagged Little Pill" vendeu mais de 40 milhões de álbuns e conquistou sete prêmios Grammy. "Eu fiquei em estado de negação por algum tempo, mas saí disso e sinto que recomecei minha vida no ano passado, de certa forma." "Assim, 'Flavors of Entanglement' meio que fala dos desafios e do júbilo de ser um ser humano e de tudo o que há entre ambos os estados. É, em um nível, uma espécie de crônica de como as coisas desandam e de atingir finalmente o fundo do poço, e do tipo de doses de esperança e renascimento de fênix que sempre estão presentes em tudo o que crio." A cantora e compositora credita sua recuperação a "ter feito uma pausa, pela primeira vez em muito tempo".
Apesar dela ter lançado algumas retrospectivas -incluindo "Jagged Little Pill Acoustic" (2005) e uma coletânea de sucessos no final daquele ano chamada "The Collection"- o período desde "So-Called Chaos" (2004) foi de fato marcado pela pausa e pelo que fez com ela, incluindo um hiato auto-imposto nos relacionamentos românticos do qual Alanis, que está atualmente namorando "alguém com que estou realmente empolgada", fala a respeito na canção "Moratorium". "Eu estava basicamente cuidando da minha vida pessoal, apenas querendo sacudir um pouco as coisas e viajando muito", ela disse. "Eu fui para Fiji. Eu passei algum tempo em Big Sur.
Eu fiz um pouco de trabalho de caridade aqui e acolá, reformei minha casa e remobiliei tudo da estaca zero." "Eu estava criando meu próprio estilo de vida e crescendo um pouco. Eu basicamente vivi a vida que posteriormente comentaria nas minhas canções." Este tipo de descanso era necessário há muito tempo para Alanis. A natural de Ottawa atua no showbiz desde que tinha 10 anos.
Apesar de ter composto sua primeira canção aos 5 anos, ela fez sua primeira aparição na televisão em "Star Search", em 1989, e como parte do elenco jovem de "You Can't Do That on Television" (1979-1987) da Nickelodeon, que a levou a um papel no cinema - "Uma Garota Muito Especial" (1993)- e um par de álbuns pop que fizeram sucesso em sua terra natal, mas não fora de lá. "Cerca de 80% das canções que compus como adolescente eram autobiográficas. Mas não tinha coragem suficiente ou estava assentada o suficiente... para escrever a história da minha vida e compartilhá-la com o povo canadense." "Eu trabalhei com pessoas no Canadá que realmente tentaram me convencer a não compor canções que não rimassem ou canções que fossem pessoais demais. Era um pouco assustador para elas. Felizmente, eu perseverei até encontrar um ambiente que me desse mais apoio, como artista, a correr estes riscos." Isto aconteceu quando, aos 19 anos, ela se mudou para Los Angeles após estadias infrutíferas em Toronto e Nashville. Lá ela conheceu o produtor Glen Ballard, que a encorajou a cavar mais fundo e cantar de forma mais franca. Esta abordagem resultou em "Jagged Little Pill" e seu desfile de sucessos, que misturavam a sinceridade de "You Oughta Know", "All I Really Want" e "You Learn", com a excentricidade de "Hand in My Pocket", "Head Over Feet" e "Ironic".
O sucesso, ela diz, foi "avassalador... realmente de abalar os nervos", mas também "realmente empolgante". E isso não impediu Alanis -que continuou a trabalhar ocasionalmente como atriz, participando dos filmes "Dogma" (1999) e "O Império do Besteirol Contra-Ataca" (2001) de Kevin Smith- de continuar na sua trilha de composição autobiográfica ao longo de mais três álbuns de estúdio. "Meu entendimento intuitivo é de que algumas pessoas cantam 20% sobre si mesmas e 80% é fictício. Quanto mais perto chega de 100%, se torna mais atraente para mim e fico mais interessada em ouvir." "No quadro mais amplo, pessoas como Joni Mitchell, Leonard Cohen e Rufus Wainwright, estes tipos de artistas, eu sinto que não há um grande filtro entre a experiência pessoal deles e sobre o que estão escrevendo. Eu acho que é um rito de passagem escrever cada vez mais de forma autobiográfica, se esta for sua inclinação, à medida que fica mais velho." Dadas as dores emocionais que levaram a "Flavors of Entanglement", o álbum poderia muito bem estar cheio de canções atacando velhos namorados. Mas Alanis não queria ser vista como alguém que só sabe fazer isso. "Há uma canção chamada 'Straitjacket' (camisa-de-força) na qual eu meio que saio para o ataque", ela diz rindo, "mas vejo as canções que expressam a raiva do tipo 'You Oughta Know'/'Straitjacket' como um rito de passagem na jornada para a cura. Não é um lugar onde eu queira permanecer, é mais uma experiência passageira na minha jornada para a liberdade". "Não é um local onde eu queira ficar, no desabafo, na raiva. Eu considero tóxico permanecer ali. Mas passar por ele, eu acho, é obrigatório." Se havia alguma dúvida se o senso de humor de Alanis permanecia intacto, ela desapareceu durante a produção do álbum, quando a cantora lançou uma versão lânguida, melódica, do sucesso dançante "My Humps" do Black Eyed Peas. Acompanhado de um vídeo, ele se tornou sensação na Internet. "Eu estava no estúdio com (o produtor) Guy Sigsworth compondo, eu acho, nossa 20ª canção.
E ele costumava me dizer, 'Que cavaleiro do apocalipse vem hoje, Alanis?' Porque eu chego todo dia uma desgraça emocional. E eu disse: 'Quem me dera conseguir compor uma canção simples, uma canção como "My Humps". Eu adoraria poder compor uma canção assim'." "E então ambos demos essa pausa e eu disse, 'Bem, eu não a compus, mas posso cantá-la...'" "Eu pensei em colocá-la no YouTube e compartilhá-la com talvez umas 500 pessoas que se divertiriam com aquilo, e o restante aconteceu como você já sabe. Eu fiquei bastante surpresa." Mas humor "pode se transformar em novidade", ela reconhece, o que significa que Alanis provavelmente se manterá no caminho sincero que tem sido sua especialidade desde "Jagged Little Pill". Ela está à vontade com isso, e confiante de que está melhor do que nunca agora. "Eu acho que há um cardápio de emoções disponíveis para mim", diz Alanis, que também atua em uma futura adaptação cinematográfica do romance "Radio Free Albemuth" de Philip K. Dick. "Eu tenho menos medo delas agora, seja raiva, medo, dor, alegria ou júbilo.
Elas me abalam muito menos, e reajo menos a elas, já que sei como canalizá-las e...me comunicar bem melhor." "O fato da composição servir como uma válvula de escape para mim é algo em que me apóio agora, e... de um simples socar o travesseiro a compartilhar algo com amigos íntimos, eu agora simplesmente tenho mais escapes para minhas emoções. Eu acho que é um testemunho de ter crescido um pouco."

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