
Em caso de dúvida, aceite Madonna pelo valor de face. Desde o começo de sua carreira ela telegrafou suas intenções e se rotulou de maneira mais eficiente do que qualquer observador. Ela usou títulos como "Music", "Erotica" e, em 2005, "Confessions on a Dance Floor", para uma coleção que misturava reminiscências pessoais e bíblicas a uma batida dançante.
Sempre alardeando a mutabilidade, ela deu a uma de suas turnês o título Who's That Girl?, e a outra ela chamou Re-Invention. No seu 11° álbum de estúdio, Hard Candy, que sai esta semana pela Warner, ela é igualmente direta. Não há dúvida de que o objetivo do disco é agradar - e o faz.
"Diga seu sabor predileto e eu o terei para você", ela promete em Candy Shop, a faixa de abertura, e prossegue reafirmando: "Venha à minha loja/ doce aqui não falta".
Isso é uma cantada, claro, mas também uma declaração de propósitos. Hard Candy tem por meta a gratificação instantânea de um apetite musical por doces - o título fala em "candy", não tofu - e, igualmente importante, manter a potência comercial da "minha loja".
Madonna fará 50 anos dentro de alguns meses. A cantora sexy e adepta da vida noturna agora é uma mulher casa, mãe de três filhos, que decidiu mudar de emprego com a chegada da meia-idade. Ela vai abandonar seu contrato com a gravadora que lançou todos os seus discos em troca de um acordo com a Live Nation, a gigante da promoção de espetáculos, que a manterá na estrada e nos estúdios por mais uma década.
Hard Candy é o último disco com material inédito que Madonna lançará pela Warner, segundo a qual a cantora vendeu mais de 200 milhões de cópias em todo o mundo (pelo selo Sire e posteriormente pelo Maverick, que ela mesma criou), desde o começo de sua carreira, em 1982. O trabalho não representa uma queima de pontes para com a antiga gravadora ¿pelo contrário. É a espécie de disco com o qual gravadoras sonham em um mercado problemático como o atual: uma coleção de canções grudentas, facilmente digeríveis e repletas de apelo de massa, por uma estrela que não deseja correr riscos.
Madona deixa de lado seus instintos pop de vanguarda e suas causas assistenciais, em Hard Candy. Em lugar de introduzir produtores pouco conhecidos de dance music ao mercado comercial, ela optou por trabalhar com responsáveis por inúmeros sucessos. Em lugar de provocações com um lado artístico, ela refinou o modelo básico de estrofe-refrão-estrofe. E em lugar de mais uma reinvenção completa, ela decidiu contemplar o passado, deliberadamente ecoando o som de seu início de carreira, com a ajuda de uma plástica realizada por meio do software de estúdio ProTools.
Quando não está convidando ouvintes a dançar ou a "me despir", Madonna usa o álbum para renovar sua marca e desafiar os céticos, ainda uma vez. Há momentos defensivos, e sua melhor defesa, como sempre, é uma batida de dança bem executada. Hardy Candy, apesar de alguns momentos tediosos, está repleto de bons grooves.
Em companhia do que quer que tenha oferecido à sua audiência ao longo dos anos - sexo, glamour, dança, desafio, blasfêmia, espiritualidade -, Madonna jamais fingiu que não era diligente. É uma profissional disciplinada, esforçada e determinada a vender. Para Madonna como arquétipo pop, o maior prazer não é o êxtase físico momentâneo ou o enlevo espiritual, mas o sucesso. Ela também rotulou esse impulso em uma de suas primeiras turnês - Blonde Ambition.
Apresentar-se não só como objeto de desejo mas como menina materialista de olhos nos lucros foi uma das decisões inteligentes que ela tomou logo no começo de sua carreira. Ao alardear seu controle e seus triunfos, Madonna fez com que os fãs ganhassem interesse em suas perspectivas de longo prazo, algo que os mais leais de seus seguidores podem apreciar à medida que seu sex appeal inevitavelmente declina ¿ainda que a cantora continue esbelta, musculosa e disposta a usar lingerie em público sempre que lhe apetecer. Em outro dos pequenos manifestos do novo disco, Give It 2 Me, ela insiste em que "não preciso recuperar o fôlego/ posso continuar e continuar e continuar".
O futuro financeiro de Madonna não parece de modo algum precário, agora que ela se separou da gravadora. Em um dito "acordo 360" que supostamente envolve US$ 120 milhões, a Live Nation cuidará de toda a sua produção, incluindo discos, shows, licenciamento e merchandising. "Vou ser a loja para todos os seus doces/ Vou te dar tudo que tenho", ela canta, apropriadamente.
Bem, nem tudo. Madonna estava começando a se tornar séria nos álbuns que lançou no século 21 - American Life e Confessions on a Dance Floor. É algo que costuma acontecer a compositores ao passar dos 40 anos. As perspectivas mudam quando eles se acomodam a vidas domésticas, se acostumam a pensar em suas famílias e começam a se preocupar com as notícias.
Na turnê Confessions, no ano passado, Madonna decidiu combinar as provocações aos cristãos, um de seus passatempos favoritos já há décadas, à sua mais nova causa de caridade. Ela cantava Live to Tell posicionada em um crucifixo equipado com globos espelhados de discoteca, usando uma coroa de espinhos, enquanto os telões projetavam imagens de africanos famintos. No show Live Earth do ano passado, ela lançou uma canção com pretensões a hino ambientalista, Hey You, que tentava sem sucesso servir como o equivalente Madonna a Imagine, de John Lennon. A canção passou quase despercebida, ainda que ajudasse a arrecadar doações de algumas empresas, e não consta do disco novo.
Hard Candy representa um esforço para se reposicionar, mas à maneira tipicamente astuta da cantora. A pista de dança - não o púlpito ou a galeria de arte - é o verdadeiro lar de Madonna, e é o espaço certo para que ela deixe de lado as pretensões e excessos. A grande declaração que ela faz em Hard Candy é simplesmente a de que continua na ativa, e pronta a produzir canções pop redondas e bem calculadas. Madonna já teve momentos mais profundos - Like a Prayer, Ray of Light -, mas nem toda estrela pop pode ser profunda o tempo todo. Desta vez, por ter criado novos sucessos que farão a platéia cantar junto, ela mostra que teve a inteligência de se manter rasa.
"Diga seu sabor predileto e eu o terei para você", ela promete em Candy Shop, a faixa de abertura, e prossegue reafirmando: "Venha à minha loja/ doce aqui não falta".
Isso é uma cantada, claro, mas também uma declaração de propósitos. Hard Candy tem por meta a gratificação instantânea de um apetite musical por doces - o título fala em "candy", não tofu - e, igualmente importante, manter a potência comercial da "minha loja".
Madonna fará 50 anos dentro de alguns meses. A cantora sexy e adepta da vida noturna agora é uma mulher casa, mãe de três filhos, que decidiu mudar de emprego com a chegada da meia-idade. Ela vai abandonar seu contrato com a gravadora que lançou todos os seus discos em troca de um acordo com a Live Nation, a gigante da promoção de espetáculos, que a manterá na estrada e nos estúdios por mais uma década.
Hard Candy é o último disco com material inédito que Madonna lançará pela Warner, segundo a qual a cantora vendeu mais de 200 milhões de cópias em todo o mundo (pelo selo Sire e posteriormente pelo Maverick, que ela mesma criou), desde o começo de sua carreira, em 1982. O trabalho não representa uma queima de pontes para com a antiga gravadora ¿pelo contrário. É a espécie de disco com o qual gravadoras sonham em um mercado problemático como o atual: uma coleção de canções grudentas, facilmente digeríveis e repletas de apelo de massa, por uma estrela que não deseja correr riscos.
Madona deixa de lado seus instintos pop de vanguarda e suas causas assistenciais, em Hard Candy. Em lugar de introduzir produtores pouco conhecidos de dance music ao mercado comercial, ela optou por trabalhar com responsáveis por inúmeros sucessos. Em lugar de provocações com um lado artístico, ela refinou o modelo básico de estrofe-refrão-estrofe. E em lugar de mais uma reinvenção completa, ela decidiu contemplar o passado, deliberadamente ecoando o som de seu início de carreira, com a ajuda de uma plástica realizada por meio do software de estúdio ProTools.
Quando não está convidando ouvintes a dançar ou a "me despir", Madonna usa o álbum para renovar sua marca e desafiar os céticos, ainda uma vez. Há momentos defensivos, e sua melhor defesa, como sempre, é uma batida de dança bem executada. Hardy Candy, apesar de alguns momentos tediosos, está repleto de bons grooves.
Em companhia do que quer que tenha oferecido à sua audiência ao longo dos anos - sexo, glamour, dança, desafio, blasfêmia, espiritualidade -, Madonna jamais fingiu que não era diligente. É uma profissional disciplinada, esforçada e determinada a vender. Para Madonna como arquétipo pop, o maior prazer não é o êxtase físico momentâneo ou o enlevo espiritual, mas o sucesso. Ela também rotulou esse impulso em uma de suas primeiras turnês - Blonde Ambition.
Apresentar-se não só como objeto de desejo mas como menina materialista de olhos nos lucros foi uma das decisões inteligentes que ela tomou logo no começo de sua carreira. Ao alardear seu controle e seus triunfos, Madonna fez com que os fãs ganhassem interesse em suas perspectivas de longo prazo, algo que os mais leais de seus seguidores podem apreciar à medida que seu sex appeal inevitavelmente declina ¿ainda que a cantora continue esbelta, musculosa e disposta a usar lingerie em público sempre que lhe apetecer. Em outro dos pequenos manifestos do novo disco, Give It 2 Me, ela insiste em que "não preciso recuperar o fôlego/ posso continuar e continuar e continuar".
O futuro financeiro de Madonna não parece de modo algum precário, agora que ela se separou da gravadora. Em um dito "acordo 360" que supostamente envolve US$ 120 milhões, a Live Nation cuidará de toda a sua produção, incluindo discos, shows, licenciamento e merchandising. "Vou ser a loja para todos os seus doces/ Vou te dar tudo que tenho", ela canta, apropriadamente.
Bem, nem tudo. Madonna estava começando a se tornar séria nos álbuns que lançou no século 21 - American Life e Confessions on a Dance Floor. É algo que costuma acontecer a compositores ao passar dos 40 anos. As perspectivas mudam quando eles se acomodam a vidas domésticas, se acostumam a pensar em suas famílias e começam a se preocupar com as notícias.
Na turnê Confessions, no ano passado, Madonna decidiu combinar as provocações aos cristãos, um de seus passatempos favoritos já há décadas, à sua mais nova causa de caridade. Ela cantava Live to Tell posicionada em um crucifixo equipado com globos espelhados de discoteca, usando uma coroa de espinhos, enquanto os telões projetavam imagens de africanos famintos. No show Live Earth do ano passado, ela lançou uma canção com pretensões a hino ambientalista, Hey You, que tentava sem sucesso servir como o equivalente Madonna a Imagine, de John Lennon. A canção passou quase despercebida, ainda que ajudasse a arrecadar doações de algumas empresas, e não consta do disco novo.
Hard Candy representa um esforço para se reposicionar, mas à maneira tipicamente astuta da cantora. A pista de dança - não o púlpito ou a galeria de arte - é o verdadeiro lar de Madonna, e é o espaço certo para que ela deixe de lado as pretensões e excessos. A grande declaração que ela faz em Hard Candy é simplesmente a de que continua na ativa, e pronta a produzir canções pop redondas e bem calculadas. Madonna já teve momentos mais profundos - Like a Prayer, Ray of Light -, mas nem toda estrela pop pode ser profunda o tempo todo. Desta vez, por ter criado novos sucessos que farão a platéia cantar junto, ela mostra que teve a inteligência de se manter rasa.
The New York Times


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